1 de março de 2011

"Renunciar e ter mais"




Chegamos na Quaresma deste ano. Mais intenso do que em qualquer período litúrgico, o apelo a conversão é repetido incessantemente. A ênfase no jejum e na oração tem como pano de fundo a renúncia. Mas, afinal de contas, o que significa renunciar? É sadio? É verdadeiro? É o que Deus deseja de cada um de nós?


Longe de toda a exclusividade religiosa, a palavra "renúncia" está presente em todas as áreas de nossa vida. De certo modo, o fazemos a cada instante. Quem nunca se deparou com o seu armário e percebeu as roupas se posicionarem, lado a lado, como na escolha de um time de pelada, pedindo para serem escolhidas e envolverem nosso corpo durante o dia? Suas mangas querem nos abraçar, seus colarinhos nos envolver...

Renunciar, numa definição rápida e generalizada, é "optar por algo e rejeitar as demais opções para o mesmo objetivo". Você escolhe a camiseta amarela e em consequência renuncia todas as outras cores e camisetas. Na vitrine da loja, o sapato que mais te seduziu e se apresentou com maior confortabilidade que os demais será o eleito, enquanto os outros serão rejeitados, ou para outra hora, ou para sempre.

Renúncia é a atitude na qual temos diversas opções e, dentre elas, elegemos a melhor para nós tendo em vista um objetivo maior, que nos realizará enquanto pessoa. Como consequência, a eleita será a privilegiada e exclusiva, e as demais opções largadas de lado. Um rapaz renuncia a possibilidade de se envolver com todas as outras mulheres quando se decide em casar com aquela que mais conquistou o seu amor. Uma jovem renuncia todas as outras possibilidades de profissão quando se decide por aquela faculdade específica.

A renúncia, digo a BOA RENÚNCIA, nunca é por si mesma. Sempre o objetivo é maior do que a renúncia. O coração do rapaz não se sentirá prejudicado por que rejeitou a possibilidade de envolvimento com outras mulheres e ter se casado com a Mariazinha. Foi a Mariazinha que se destacou, que deu significado ao seu mundo. Foi ela que, com os seus defeitos e qualidades, o arrastou ao belo amor e o levou ao casamento, ao compromisso perpétuo. Não será um peso renunciar a possibilidade das demais, quando o que foi escolhido é o que, de alguma forma ou outra, completará o sentido de sua existência. Escrevo assim porque muitas pessoas abraçam a idéia de que a renúncia é ruim, é triste e sofrida. Isso acontece por que carregam a renúncia como um fardo irritante. Renunciam simplesmente por renunciar.

O aspecto principal da renúncia é a possibilidade de escolha. As cartas estão na mesa. Escolhe-se a mais apropriada. Não ter possibilidade de escolha é imposição, ferimento da liberdade e do livre arbítrio. Na ausência de escolha, há ausência de renúncia. Algo imposto não é algo escolhido e, portanto, falar de renúncia, neste caso, é impossível.

Se para haver renúncia é necessário a possibilidade de escolha, para haver a escolha é necessário o livre arbítrio. Proponho o livre arbítrio como um todo que pode ser entendido em 3 momentos: atitude própria; conhecimento e; responsabilidade.

Atitude própria diz respeito ao estado livre de não sofrer nenhum tipo de coação. Ser você mesmo e não outra pessoa a optar por você. Muitas vezes outras pessoas, ou instituições, querem decidir por nós e usam todos os recursos possíveis: intimidação, chantagem e até mesmo violência. Ora, sob estes aspectos não pode haver uma decisão, de fato. Com um arma na cabeça a pessoa faz qualquer coisa: pode até mesmo tomar sobre si a culpa de um crime que ela não cometeu (indico o livro do Fábio de Melo "Sequestro da Subjetividade").

Mas para que eu tome a decisão sobre algo, e renuncie as demais, é necessário que eu conheça o objeto da escolha e da renúncia. Se não conheço minha namorada o suficiente, não terei toda a propriedade em decidir casar com ela. Se não conheço as outras opções de profissão, como terei certeza de que não me arrependerei lá na frente? Para se evitar a frustração e o fracasso nas decisões é necessário conhecê-las profundamente.

Quando se conhece as opções e decide sobre uma delas, entra em jogo a responsabilidade. É levar as consequências até o fim. Já que, livremente optei por ela, livremente rejeitei as demais, livremente busquei conhecer a opção antes de me decidir. Agora, livremente assumo o desenrolar da história à partir da escolha. É ser maduro. Um marido que trai a sua esposa é uma pessoa imatura. Não está sendo responsável pela escolha que fez. Ser responsável também abre a possiblidade de voltar atrás quando se percebe que o objetivo maior não está sendo respeitado. Este objetivo maior é a realização de si mesmo. Exemplo: um jovem renuncia a vida saudável quando opta pelo uso das drogas. Ora, o uso das drogas é escravizador, limita o uso do livre arbítrio, além de trazer consequências nefastas. Assim, é irresponsabilidade e imaturidade prosseguir com uma decisão de renúncia a vida saudável quando o maior objetivo de preservá-la está sendo ignorado e mesmo rejeitado. Ser responsável é perceber quando a escolha foi feita de modo imaturo e quando se optou por algo, em si e para si, ruim.

Por fim, o que leva adiante a renuncia é a decisão. Sem ela, nenhum projeto, bom ou mau, irá adiante.

Para pensar: nessa quaresma, quais serão as suas renúncias? São feitas livremente? Ninguém está impondo ela a você? Você sabe de suas consequências? Essas consequências, serão boas ou ruins? Qual é o objetivo da sua renúncia, no caso específico?


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