O que é tentação mesmo?

A cada quaresma, no seu primeiro domingo liturgico, a Igreja propõe o evangelho da "tentação de Jesus". Um texto muito intrigante. O duelo de Jesus com demônio tem o desfeixo que esperávamos: a vitória do Filho de Deus! Mas e com a gente, comigo e com você, é sempre assim? Sempre ganhamos nas tentações? Por que não ganhamos? E aliás, o que vem a ser a tentação?
Em primeiro lugar vale destacar que nós, enquanto pessoas humanas, somos limitados. Esta limitação atinge as diversas dimensões que há em nossa condição. Não conseguimos, por exemplo, ouvir todos os sons. Os sons que são percebidos pela nossa consciência acontecem num intervalo específico entre o agudo e o grave, alto e baixo. Há sons que os cães "escutam" e nós não. Do mesmo modo, não vemos todas as coisas: as estrelas são percebidas apenas pela luz que chegam a nós, e os microorganismos apenas com um potente microscópio. Igualmente com o conhecimento: não sabemos de tudo. Entendendo o conhecimento com relação a nossa vida percebemos que há muito do passado que nós não lembramos e que o nosso futuro é um mistério. Não temos a capacidade de "conhecer" o nosso próprio futuro (destaco que uma coisa é planejar o futuro, outra coisa é saber, "tin-tin por tin-tin", tudo o que vai acontecer). A tentação vem de encontro com nossa condição humana. A limitação atinge nossa dimensão moral. O pecado é a exposição, da pior forma possível, de nossa limitação.
Tentação é a sugestão que fazem a nós, ou que nós mesmos nos fazemos, para o mal. Explico-me: sabe aquela estórinha de desenho onde se tem um anjinho e um diabinho na nossa cabeça, cada qual defendendo seu qual? Pois é, a tentação funciona assim. É uma sugestão que, com os seus devidos argumentos, tem o objetivo de nos convencer ao mal. Ela passa pelo nosso discernimento que, uma vez seduzido, nos leva a desejar o objeto sugerido pela tentação e assim pecamos. Pode parecer redundante escrever isso mas, a tentação passa pelo nosso livrearbítreo. A culpa pelo erro cometido não é do tentador, seja com "t" minúsculo ou maiúsculo, mas do tentado que consente com sua argumentação. Aliás, se por um acaso, alguém tiver o poder de nos "forçar" a pecar, o nosso pecado passa a ter sua culpabilidade reduzida ou mesmo anulada. Para sermos responsáveis por nosso atos é preciso haver consciência e consentimento. Na tentação o demônio não rouba a nossa consciência, nem seu uso, muito menos o livrearbítreo.
É interessante lembrar que a tentação não vem de Deus, e nem sempre do demônio, podendo surgir de nós mesmos. A Bíblia diz assim: "Quando tentado, que ninguém diga: 'Deus está me tentando.' Porque Deus não é tentado a fazer o mal nem tenta a ninguém. Cada um é tentado pelo seu próprio desejo, que o atrai e seduz; a seguir, o desejo concebe e dá à luz o pecado, e o pecado uma vez consumado, gera a morte" (Tg 1,13-15). Como recurso para se livrar da culpa, costumamos "passar a bola" para o demônio, colocando-o como causa todo mal moral que cometemos. Nos esquecemos que há muita coisa que nós mesmos procuramos, por iniciativa total de nossa parte: o desejo de vingança; de fazer valer o próprio eu em detrimento do próximo; o acúmulo injusto de bens e tantas outras coisas que tem sua origem em nossa própria miséria. Não pretendo negar, de modo algum, que o demônio nos tente. Sim, ele nos tenta ao mal, mas nós também sabotamos a nós mesmos. A ganância por certas coisas ou títulos dá sabor agradável ao mal. As tentações de Jesus foram as propostas demoníacas que podem haver também em cada ser humano (cf. Mt 4,1-11). O desejo do milagre fácil (transformar pedras em pães), de esperar que Deus faça tudo o que queremos (tentar a Deus) e o de adoração com a simples finalidade de obter mais poder e riqueza também são alguns anseios humanos. Em todos os casos a tentação, enquanto tal, é simplesmente tentação, não pecado.
Ser tentado não é o mesmo que pecar. Perceba em Jesus: Ele foi tentado no deserto, e alguns místicos dizem que Jesus também foi tentado no monte das Oliveiras. De qualquer modo, a tentação não passa de sugestão. O que é pecado será o consentimento com a tentação. O demônio não pegará o seu braço e fará você bater em sua esposa, nem acenderá por você a droga e a tragará por você. Quem fará isso? Você mesmo!
O poder de cada tentação será o poder que nós mesmos damos a ela. O apóstolo Paulo escreve que niguém é tentado além do que podia suportar (cf. I Cor 10,13). A proposta sempre será no nível humano. As forças que você tem em si são as mesmas necessárias para vencer e rejeitar as tentações.
Como último ponto reforço o que disse no começo: o pecado é pior exposição de nossa limitação. Mas há o oposto. A melhor forma da exposição de nossa limitação é a misericórdia de Deus. Há uma música que cantávamos na igreja na minha adolescência que diz assim: "Deus te ama. Não quer ver você pecar mas se você cair, te perdoará! E por mais que você erre Deus sempre estará de braços abertos!".
Boa Quaresma

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