Você tem testemunho ou é testemunha?

Não é raro ler um jornal e ter conhecimento de quantos crimes tem acontecido em nossos dias. Muitos deles quase não se encontra o verdadeiro culpado. O que "salva" todo o processo de investigação é uma testemunha que resolve aparecer.
É justamente essa pessoa que portará em si o que realmente se passou. A testemunha é a espectadora do acontecido que terá total credibilidade em narrar o que realmente aconteceu e descrever os criminosos quando os mesmos são desconhecidos.
O termo "testemunha" no meio cristão recebe outra qualidade intrínseca: não o ser mero espectador, mas co-participante da ação. É experimentar em si a presença de Deus e, percebendo o mover de seu braço, poder se levantar e proclamar as maravilhas de Deus.
Outro dia ouvi por aí uma pessoa que, prestes a realizar uma ação evangelizadora, nos disse: "Vou ali aumentar o meu testemunho!"
Confesso que fiquei chocado! Qual é o entendimento de "ser testemunha" e "ter testemunho?"
Na afirmação, o que se queria era uma boa quantidade de obras, para que se manifestasse aos outros a bondade de si ou a própria fidelidade ao evangelho. O interesse não era passar a boa nova para outra pessoa, mas antes a atitude soberba de fazer crescer em si os fatos que terão autoridade para levantar o nariz e dizer: "EU FIZ"
Qual é o sentido de sua ação?
Há muitos grupos que tem buscado, em cada atitude, "ganhar" o reino dos céus. Rejeita-se o mal porque, com ele, irá para a condenação eterna. Evangelizo outras pessoas porque, se não o fizer, estarei a guardar o talento que Deus deu para mim e, assim, serei cobrado por isso. Inúmeras outras ações poderiam ser citadas. Todas elas são boas em si, no entanto são transformadas em ações más quando se observa o objetivo final. O que esperam: simplesmente não serem cobrados de nada e não serem rejeitados por Deus, ou ainda, se livrar da cólera divina. Muito se assemelha àquela criança, de família desestruturada e ferida, que não tem o menor sentimento de amor pelo pai, apenas cumpre suas ordens, pois, lembra-se dos estalos do seu cinto em seu lombo. Ou ainda, aquele outro filho que só liga para o pai quando é para pedir algo, e para poder pedir, faz alguns mimos antes e "amolecer" o coração de seu velho.
Não se ganha testemunho. A própria motivação de se ganhar testemunho é antitestemunha, interesseira, mesquinha, e nada parecido com o que Jesus nos pediu.
O beato padre Kentenich, fundador do "movimento de Schoentatt", dizia que o Amor sublime é desinteressado. Faz sem esperar nada em troca. Faz porque ama, e isso basta!
Ser testemunha é aquela atitude espontânea que surge à partir do contato com Deus. Não é algo fabricado ou simulado. Pedro, em frente aquela ardente fogueira que buscava iluminar a noite escura e fria - mais fria no coração do que na atmosfera - em que Jesus foi entregue ao tribunal, foi reconhecido como discípulo de Jesus: "É claro que você também é um deles, pois seu modo de falar o denuncia" (Mt 26,73). Pegue a cena: Pedro, um velho galileu, pescador, sua pele marcada pelo calor do sol e suas mãos com peles grossas de arrastar as redes. Talvez o sotaque do seu falar revelaria que era da região norte de Israel, como qualquer outro galileu. Pois bem, porque o identificaram com Jesus? Justo numa situação tão constrangedora, onde ele, com toda a certeza, queria se mostrar imparcial para acompanhar o julgamento de seu Mestre o mais próximo possível? É porque o discípulo de Jesus é testemunha dele mesmo parado! Há algo em seu olhar, um brilho diferente, uma voz diferente, um jeito de ser gentil diferente... A testemunha verdadeira é aquela que não precisa se esforçar para ganhar testemunho: simplemente é.
Quando uma jovem rico, filho de advogado famoso, é parado pela polícia, ele logo ergue a voz: "Você, por acaso, me conhece? Sabe de quem eu sou filho?". Ou seja, usa este recurso de transferência de superioridade para suprir a sua ausência de autoridade. Quando quero criar ações para "aumentar" atitudes, no fundo, no fundo, é porque o SER TESTEMUNHA é insuficiente em mim, busco recursos para mascarar a deficiência do perfil.

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