17 de novembro de 2010

Fracasso e sofrimento


Nestas últimas semanas tenho meditado sobre a morte de Jesus. A crucificação de Jesus é um fato marcante na história de salvação. Entre nós, o costume é destacarmos a Ressurreição de Jesus. A morte, bem, a morte é entendida apenas como mal necessário. Falar que Deus morreu ainda é difícil para nós, cristãos. O Deus Onipotente não pode ser tocado pela fragilidade.
Na época de Jesus, a teologia dominante criou a idéia do Messias-Rei. Um homem com tanto poder que nem mesmo a doença chegaria em seus pés. Uma pessoa pura perante as exigências da Lei e do sacrifício. Este Messias não era entendido como Deus, mas como alguém com um mandato especial da parte divina. Messias (do hebraico) e Cristo (do grego) significa "O Ungido". Alguém cuja capacidade era entendida, de certa forma, como sobrehumana, que viria para por um termo nesta realidade maligna.
Jesus parece não ter "encarnado" esta idéia. O que tocamos nos Evangelhos é outro rosto. Um Messias pobre, rejeitado, que não habitava na Cidade Santa de Jerusalém. Sua companhia: os pecadores, tido como impuros pela sociedade da época. O Cristo não está num rosto perfumado com os mais caros perfumes, mas sob o suor de sua contínua caminhada. As lágrimas dos que sofriam se confundiam com as gotas de suor que o sol fazia aparecer sobre a sua pele. A elite, de um modo geral, o perseguia, o rejeitava. Os grandes que almejavam ser discípulos do Cristo vinham as escondidas, durante a noite (cf. Jo 3).
A entrada triunfal em Jerusalém é o prelúdio do fracasso. Este momento que parecia ser, aos olhos dos discípulos e do povo peregrinante, a "chegada do Reino de Deus" - com a destruição do poder das trevas - termina em tragédia. Seu ponto ápice: a cruz.
O Calvário sempre me chamou a atenção. Foi numa Sexta-feira Santa que comecei a frequentar a Igreja. Foi onde fiz uma experiência de amor de Deus. A crucificação de Jesus demonstra a antítese de Messias que Jesus foi: "homem sujeito a dor, familiarizado com o sofrimento, como pessoa de quem todos escondem o rosto" (Is 53,3). No último suspiro morre junto com Jesus a esperança de novos tempos que havia nos corações daqueles que, à distância, acompanhavam a cena trágica. Os discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35) é o retrato falado da comunidade da época. Foram todos embora. Abandonaram seus sonhos. As grandes maravilhas dos feitos de Jesus se tornam lembranças cinzas e distantes.
Não é raro ouvir por aí pregações que constroem um deus (minúsculo mesmo) que concede super poderes aos seus discípulos. "Venha para a nossa igreja! O nosso deus não deixará você ser tocado por mal algum. Se você está sofrendo, é porque não tem deus no coração". Na experiência religiosa de tantas pessoas ainda há aqueles gritos ensurdecedores do líder que arremessou em nossa vida a idéia de sofrimento como sinal de maldição. Sinceramente, não sei de onde tiraram isso. Servir a Deus (agora com "D" maíusculo) não é uma metamorfose onde a condição humana é imunizada. Como certa vez escreveu minha amiga Luciamare (@Lucimare_ ), o milagre não é mágica. Nos Evangelhos percebemos Jesus como aquele que fazia o bem a todos, no entanto, sua morte foi do jeito mais humilhante disponível em sua época. Seus discípulos, apóstolos, nem estes fiéis companheiros tiveram em sua vida a capa dos super heróis. Estevão é apedrejado. No livro dos Atos dos Apóstolos os homens de Deus sofrem de diversos modos. Experimentam em sua carne a dor. Então, cadê aquele "d"eus que, num passe de mágina anulará o sofrimento?
Jesus é o Deus que nos ensina que a morte não é a última palavra. O sofrimento é inevitável a nossa condição. Mas, como disse certa vez Willian Brown, "o fracasso é um evento, nunca uma pessoa". Passar por momentos onde, aparentemente somos derrotados, não quer dizer que somos fracassados. Enquanto houver suspiro em nosso peito, ainda há nova chance de vida.

Para compartilhar (URL reduzida>: http://bit.ly/c5tNKa

2 comentários:

Erika 17 de novembro de 2010 11:52  

Nossos sofrimentos devem completar os que foram sofridos por Jesus. Se pensarmos assim eles nos serão como degraus para bem vivermos em busca do céu!

orvalho do ceu 23 de novembro de 2010 20:26  

Olá,
"O fracasso é um evento nunca uma pessoa"... Bonita demais essa frase e sensata... igualmente!!!
Dê uma olhada no meu post de anteontem (Domingo), por gentileza:
Estou fazendo uma semana de reflexões com textos sobre o silêncio, acompanha,tá?
Saudações com votos de paz e alegria no início da nova semana.
Bjs fraternais

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