Fé, Política e Igreja

Há muito tempo tenho ensaiado este post. Nas vésperas da eleição presidencial é que resolvo escrevê-lo. Sei que ainda está meio desarticulado, mas quero colocar aquilo que penso sobre este momento histórico. Temos visto que, neste segundo turno, o debate ganhou caras e expressões religiosas. Pastores, bispos, padres, crentes em geral se manifestaram contra ou a favor de determinados candidatos. Ainda sou jovem, é cedo para eu afirmar uma coisa dessas, mas, não me recordo de ter havido uma eleição com tanta repercussão dentro dos templos. São pregações, sermões, homilias e tantos outros momentos do culto cristão que foram direcionados para uma consciência política, ou de voto, ou partidária.
O que acho estranho é que, no geral, as pessoas não gostam de política. Os assíduos nas expressões comunitárias de fé (missas e cultos) não gostam quando o padre, pastor, obreiro ou freira falam de política. No geral, os cristãos não gostam de misturar fé e política. Percebo isso enquanto pregador: quando realizo um discurso com alguma temática mais social, propondo uma visão crítica da realidade presente, mostrando algumas incoerências do sistema vigente, sou rotulado de estar "frio na fé". Quantas vezes já não presenciei homens e mulheres que, ao subirem no púlpito, trouxeram uma mensagem profética, num tom social, e as pessoas ao meu redor comentarem: "Xiii... hoje tá sem unção. Não gosto que misturem fé e religião". Ou ainda, "na hora de falar sobre a palavra de Deus não se deve falar de política".
O escândalo em mim é este movimento contraditório. Passa-se o intervalo entre as eleições e não se toca em nenhum assunto social. Não se fala de candidatos, nem de candidaturas. Não se fala do papel cristão (humano) na sociedade. Não se prega a consciência do voto. Aliás, o que se escuta, no geral, é que a política é corrupta e que os cristãos, a raça pura da humanidade, não se deve contaminar com isso. Oras bolas... é incutida, toda semana, a mensagem de que Palavra de Deus e política se excluem entre si. Porque exigem na hora do voto a consciência da pessoa cristã?
As coisas tem funcionado mais ou menos assim: colocam dentro do coração de cada fiel o sentimento de aversão a política. Perceba que é difícil a participação de líderes religiosos e fiéis nas associações de bairro, no conselho de segurança comunitário, nos orçamentos participativos, nas chapas e eleições para o conselho tutelar... Male, male vão nas reuniões de pais que acontecem na escola!
O povo é criado sem uma consciência política. Ou melhor, sem consciência de que a expressão de fé é política. Acreditar, ter fé, é aderir a proposta de Jesus. Nos Evangelhos somos convocados a assumir, com radicalidade, o projeto do amor. Este amor é transformador. Dignifica a pessoa humana. O projeto de Salvação de Jesus tem a dimensão política: "O Espírito do Senhor está sobre mim (...) enviou-me para proclamar a libertação dos presos (...), para restituir a liberdade dos oprimidos e para proclamar o ano da graça do Senhor" (Lc 4,18-19). Seremos julgados sobre a adesão deste projeto: "Vinde, benditos de meu Pai (...), pois tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me acolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me (Mt 25,34-36). Este trecho não é para incentivar, apenas, a ação caritativa assistencialista. Tem que ser interpretado com lente de aumento, com máxima expressão. É na política que poderemos ter expressão larga deste projeto de Jesus.
Uma definição clássica de política é "ação que busca o bem comum". Nas primeiras comunidades cristãs percebe-se o espírito do "bem comum". A política é este instrumento. Legisla-se para o bem comum. Governa-se para o bem comum. Leis são descumpridas porque não temos feito nossa presença cristã neste setor. Jesus nos envia aos confins do mundo para evangelizar. Acredito que este lugar extremo do mundo seja o mundo político. Todos sentem este cheiro podre de imoralidade na política. Todos nos arrepiamos ao sentirmos a corrupção chegar em nossos lares quando pagamos impostos e eles não chegam na finalidade proposta. Dinheiro desviado, desafeto com a saúde, rejeição de um projeto bom de educação... impostos... impostos... impostos...
E nós, cristãos, apenas nos movimentamos, de modo geral, quando determinado deputado quer fazer um projeto de lei que acaba com o feriado de Nossa Senhora? Apenas nos expressamos quando aparecem determinados candidatos abortistas? E as outras realidades? Não precisam ser tocadas pela Palavra da Vida?
O que mais me deixa triste é quem tem se interessado por política são aquelas pessoas que não lutam pelo bem comum. E nós, que temos esta unção de profetas, reis e sacerdotes, temos dado de bandeja este instrumento de transformação do mundo.
Podemos sim ver o Reino de Deus entre nós! Podemos sim, nós, crentes, católicos, evangélicos, cristãos, ver a graça de Deus acontecer e a miséria e injustiça diabólicas serem destituídas desta realidade. Podemos, sim, desde que assumamos o nosso papel. Desde que nossa expressão de fé transcenda os templos e cheguem nas assembléias legislativas, nos tribunais, nas associações....
Não é em vão este momento histórico! Repito, nunca vi tanto espaço para uma eleição dentro dos templos como esta que acontece. Não seria um chamado divino para que nos despertemos de nosso sono e assim levarmos o Espírito de Deus à política? Acredito ser este o chamado de Deus para nós.
Abraço a todos.
Até mais.

Não conhecia seu blog...muito bom!!!!
:)
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