
"A gente se vê por aqui." Não, não se espante. Não é uma propaganda de uma rede de televisão brasileira. Se bem que, você há de convir comigo, esta ideia foi genial. Um bordão assim nos trás a sensação de intimidade, de encontro, de proximidade. É fantástica a evolução dos meios de comunicação em geral. Nos diversos meios de comunicação, o valor da imagem é altíssimo! Basta acompanhar pelas redes sociais que uma frase compartilhada leva a reflexão, mas uma IMAGEM, Deus do céu, gera um turbilhão de repercussão. Até mesmo aquelas frases que já perderem seu impacto ganham forças avassaladoras quando acompanhada de uma bela imagem. É, já passou da hora de eu começar a aprender mexer no fotoshop... Fico boiando nesta onda!
A verdade é que estamos vivendo uma era da "Ditadura do Simulacro". Há diversas correntes de imagens com frases do tipo: "Como eles vêm... como eu vejo... como realmente é..." O simulacro é aquilo que pretende ser a realidade, mas nunca chega a ser. Toma-se o imaginário pelo real, a fantasia pela realidade.
Há uns anos atrás, em nosso grupo de jovens, rolava um livro ilustrado sobre a Santa Missa. Minha imaginação ganhava asas com as gravuras que foi colocada para "simular" para o pensamento o que seria a realidade da missa. Anjos e demônios, luzes e escuridão, beleza e feiura, coros evangélicos e vozes celestiais diversificava a realidade da missa representada naquelas figuras. "Quanta mística", diriam alguns. Mas daí, quando eu ia para a missa o que eu encontrava: um violãozinho desafinado, uma voz estridente no coro, um sermão sonolento... E a senhorinha recitando piedosamente suas mil ave-marias (santa mulher)! Cadê aquele esplendor todo? E aquele equilíbrio de cores? O que tinha na minha frente era um altar, um ambão, um padre, uma senhora e uma parede em branco.
O engraçado é que nesta ditadura de imagens, a representação rouba o lugar do representado de tal modo que não conseguimos mais imaginar quem ou o que é representado, apenas a sua representação. Explico. Imagine, meu querido amigo, o rosto de Jesus. Pois é... Imaginou um homem branco, bochechas rosadas, pele lisa, cabelos e barbas lisas e sedosas... Seus olhos são azuis, verdes e suas mãos são macias. Mas, já parou para pensar que Jesus era um homem da Palestina e que, debaixo daquele sol todo, sua pele seria, no mínimo, alguns tons mais escuros do que você imagina? E que sua pele não seria tão macia assim... Nem seus cabelos tão sedosos. Já reparou que os palestinos RARAMENTE têm seus olhos claros? Há alguma coisa que os biólogos explicam (e que eu não sei dizer aqui com propriedade) que os seres humanos, nas regiões mais quentes, têm seus olhos escuros (castanhos, ou algo do tipo). Seria a artimanha de nosso corpo para nos proteger contra os raios ultravioletas e coisas do tipo (acho bom consultar um oftalmologista para ter mais informações.. rs). Com todas estas características, o Jesus histórico seria um pouco diferente daquele Jesus "do norte da europa" que vemos nos quadros por aí (confira a imagem deste post).
Não que eu seja contra o uso destas imagens... O que me incomoda é o fato de que muitas pessoas, com santa piedade mesmo, tornam aquilo que é representação (Jesus de olhos claros e etc) como se fosse o Representado (Jesus com perfil árabe) de tal modo que acham um absurdo questioná-las sobre isso. A representação de um Jesus negro então está fora de questão para alguns...
Perceba que esta representação é fruto, muitas vezes, de uma ideologia dominante que deturpa a realidade para comunicar suas idéias. Talvez, para alguns, um Jesus árabe seja um escândalo, pois, por considerarem o "homem branco europeu" o ponto mais alto da evolução da humanidade, tomam toda a humanidade como "raça inferior" (não sei de onde tiraram "raça humana", como se fossemos cachorros com um determinado pedigree). Ouvi histórias de pessoas em determinados lugares que, ao se confessar com um padre negro, procuraram um padre branco para perguntarem se o sacramento foi válido! É, pasmem! Isso acontece debaixo de nossos confessionários...
Acho fantástico quando me enviam imagens de Jesus e de Nossa Senhora negros, indígenas ou orientais (obrigado Isis pelos seus compartilhamentos). No fundo, no fundo, demonstra que o "rosto espiritual" (será que posso usar esta expressão?) de Jesus é multicultural e multiétnico. Ele é de todas as cores e de todos os países deste mundo. É branco, é negro, é indígena, é oriental, é loiro...
Claudio Pastro, com sua sensibilidade artística, busca, em suas obras de arte, romper com esta ideologia. Basta notar a representação de Jesus que ele faz nos crucifixos que são utilizados nas procissões: a imagem é de um Jesus com aspectos indígenas! Nunca reparou? Pesquise uma imagem para notar...
Enfim... devemos tomar todo o cuidado para que a nossa devoção não seja contaminada por ideologias e simulacros de tal modo que surja em nossa mente preconceitos baseados em modismos. Que nossa contemplação perpasse o simulacro e atinja o real.
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